Lições e aprendizados sobre a ocupação das escolas

Manifestação dos estudantes secundaristas de São Paulo a favor da educação pública e contra a precarização do ensino (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Renato Rogenski

“Tudo o que os jovens podem fazer pelos velhos é escandalizá-los e mantê-los atualizados”. A frase é do dramaturgo, romancista, contista e jornalista inglês George Bernard Shaw, e diz muito sobre o cenário atual das escolas em São Paulo, muitas delas ocupadas desde que o Governo Paulista anunciou uma reorganização que pretendia, entre outras coisas, fechar algumas unidades públicas de ensino e alterar diretamente a vida escolar de dezenas de milhares de pessoas.

O episódio, que continua gerando discussões de toda sorte traz um viés bastante interessante: se em algum momento a sociedade brasileira subestimou o potencial do jovem e sua capacidade de articulação política, a ocasião foi a fagulha que faltava para provar o contrário e incendiar os debates sobre a educação no País. De quebra, o movimento conseguiu elucidar uma questão que ficou inevitavelmente clara: o imenso descolamento do atual sistema vigente de ensino nas escolas públicas, com características letárgicas e insossas, do jovem atual, um ser em ebulição perene, estimulado pelo bombardeio de informações, a revolução digital e a conexão evidente com as diversas mudanças em curso pelo mundo.

Se visualmente as escolas do maior estado do País lembram muito a hostilidade das casas de detenção, com muros imensos, grades de ferros, ambientes escuros e pisos gelados, a maneira como o sistema de educação é conduzido, sem praticamente nenhuma grande evolução ao longo de muitos anos, também parece propicio para aprisionar um aprendizado que deveria ser mais natural, criativo, orgânico e prazeroso dos alunos.

Sem aqui buscar conjecturas políticas para explicar, defender e muito menos atacar qualquer um dos lados da questão, vale destacar o legado que as ocupações deixaram para as escolas, não apenas do estado de São Paulo, como para as instituições de ensino de todo o Brasil.

O diálogo é essencial

No verso de uma das letras de música mais cortantes do gênero rap no Brasil, o artista MV Bill canta que “ninguém mais quer ser boneco, ninguém quer ser controlado”. O que isso tem a ver com a reorganização das escolas? Tudo. Em primeiro lugar porque o jovem de hoje tem a exata noção de sua capacidade de mobilização e participação no processo democrático. “Antes de mais nada, para iniciar um processo de mudança como esse, é essencial haver um diálogo entre professores, alunos, comunidades e a Secretaria de Educação. Não estamos em um país radical. Decisões arbitrarias, sem consulta popular, não funcionam mais aqui no Brasil. É preciso escutar quem estuda e trabalha nas escolas todos os dias. Todo mundo tem direito a educação e consequentemente deve exigir um ensino de qualidade”, acredita Haroldo Guerra, empresário da área contábil e diretor da Revista Olhar São Paulo.

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Aula pública com a cartunista Laerte durante a ocupação na Escola Estadual Fernão Dias. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas

Escolas mais vibrantes

É óbvia a falta de sinergia da grade curricular da escola pública convencional com o mundo atual dos jovens e o universo de possibilidades que se abriu com disciplinas não lineares e superinteressantes nas últimas décadas. Fica muito claro também que as ocupações, além de atos de resistência, deixaram sugestões bastantes exemplares de como uma escola pode ser, “mais viva, vibrante e pulsante” como sugeriu e observou o jornalista e educador Tony Marlon, em conversa com a reportagem da revista Olhar São Paulo. “Os estudantes fizeram aulas de fotografia, cinema, geopolítica, português, redação, circo, le parkour, yoga, comunicação e dezenas de outras coisas que são atraentes, produtivas e muito mais importantes para a formação deles como cidadãos”, comenta a estudante de jornalismo e militante do movimento autônomo, Mariana Zancanaro.

Legado real

Muita gente acredita que essas mudanças estruturais propostas pelos estudantes não vão desaparecer com o fim das ocupações e que, quando as aulas voltarem ao normal, mesmo sob gestão do Governo do Estado, os alunos não aceitarão mais as mesmas condições com facilidade. “Secundaristas que são capazes de fazer assembleias, deliberar ações em conjunto, estabelecer redes de apoio e ainda afastar grupos políticos oportunistas, muito provavelmente continuarão a se organizar – dentro e fora da escola. De uma maneira geral, a organização dos estudantes dá esperança para que a educação enquanto instituição se modifique, adequando-se às demandas e exigências dos próprios alunos”, acredita Mariana.

Nada será como antes     

Quem endossa o discurso sobre as ocupações como um divisor de águas na educação, principalmente para quem participou do processo, é Carolina Duarte, professora de história na E.E Lavínia Ribeiro Aranha. “Os alunos perceberam que eles têm poder na educação e através das ocupações reorganizaram as escolas, chegaram até a pintar e arrumar coisas quebradas. Além disso, foram criadas inúmeras aulas e oficinas. Nas escolas em que eu acompanhei melhor o movimento, teve oficina de percussão (maracatu), dança afro, sarau, palestras sobre feminismo, sobre racismo, consciência negra, jornalismo, ou seja, coisas importantes e interessantes que não são desenvolvidas normalmente nas escolas. Ouvi de muitos alunos que eles aprenderam muito mais na ocupação do que em anos dentro da sala de aula. Creio que os alunos que participaram, não aceitarão o sucateamento de ensino”, comentou.

Assembleia dos estudantes para decidirem se vão desocupar as es

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Fotos Públicas

5 lições sobre as ocupações

O movimento de ocupação das escolas apenas deu início a um sério debate que parece ter sido adiado há décadas: a melhoria do sistema educacional do país. Essa matéria apresenta apenas alguns dos recortes e avaliações possíveis sobre o tema, o que não nos impede de apresentar cinco lições que parecem bastante claras:

  • A capacidade de organização e articulação dos jovens
  • A necessidade de grades curriculares e calendários de atividades mais vivos e estimulantes para os alunos.
  • A necessidade de investimentos estruturais nas escolas.
  • A necessidade de sinergia da escola com os alunos, que precisam ser ouvidos e estar envolvidos de fato no processo de construção do sistema educacional.
  • A importância de holofotes sobre um sistema vital para qualquer sociedade: a educação.

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